Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV)

Em quase quatro décadas, devido ao avanço tecnológico do tratamento e controle da infecção, a pandemia causada pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) evoluiu do patamar de uma infecção fatal para uma doença crônica de importância mundial (como diabetes, hipertensão, entre outras). Os dados mais recentes da Organização Mundial da Saúde indicam que, em 2016, aproximadamente 36,7 milhões de pessoas viviam com HIV/aids no mundo, enquanto apenas 20,9 milhões teriam acesso ao tratamento com antirretrovirais.

Embora diversas medidas para controle da transmissão materno-fetal, por hemoderivados e contato sanguíneo direto sejam amplamente bem sucedidas, a transmissão sexual ainda é predominante em quase todo o globo. Existe um esforço científico universal para o desenvolvimento de uma vacina ou tratamento que seja capaz de sobrepor os mecanismos de escape viral. Porém, ainda não foi possível estabelecer uma estratégia terapêutica capaz erradicar eficientemente a infecção em toda a população infectada pelo HIV.

O AGENTE INFECCIOSO

O Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus (ICTV – International Committee on Taxonomy of Viruses) classifica o vírus da imunodeficiência humana (HIV) como membro do gênero Lentivirus, pertencente à família Retroviridae e subfamília Orthoretroviridae. Os lentivírus infectam células do sistema imunológico como macrófagos e células T e causam infecções persistentes e doenças com longos períodos de incubação.

Estudos filogenéticos em espécies de primatas não-humanos revelaram que o HIV teve origem zoonótica evoluindo a partir de variantes do vírus da imunodeficiência símia (SIV). Assim, diversas variantes do HIV-1 representam saltos evolutivos a partir SIV que infectam diferentes espécies de primatas, enquanto os nove grupos do HIV-2 (A, B, C, D, E, F, G, H e I) evoluíram a partir de SIVsmm que infectam mangabeis fuliginosos. Embora a infecção pelo HIV-2 esteja praticamente restrita a países do oeste africano, casos isolados foram encontrados em Portugal, França, Índia e Estados Unidos. O HIV-1 é categorizado entre os grupos M (Main), O (Outlier) e N (Non-M/Non-O) que resultam de transmissões interespecíficas independes do SIVcpzPtt de chimpanzés Pan troglodytes troglodytes para os humanos, enquanto o grupo P teve origem a partir da transmissão de SIVgor da espécie Gorilla gorilla gorila para humanos. A maior parte dos isolados pandêmicos de HIV-1 pertence ao grupo M que é classificado em nove subtipos: A, B, C, D, F, G, H, J e K e sub-subtipos (A1, A2; F1, F2, etc.). Além disso, eventos de recombinação genética viral levaram à origem de um número crescente de formas recombinantes circulantes (CRFs – circulating recombinant forms). Cerca de 90 CRFs foram descritas até 2018. A partícula viral HIV é envelopada e apresenta entre 80 a 100 nm de diâmentro. O envelope é formado por uma bicamada fosfolipídica, proveniente da membrana citoplasmática da célula hospedeira, e apresenta espículas em sua superfície formadas por trímeros das glicoproteínas virais gp41 e gp120.No interior do vírion encontra-se um nucleocapspídeo protéico que protege o genoma viral constituído por duas fitas simples de RNA, além de proteínas e enzimas virais.

O genoma viral de aproximadamente 9750 bases compreende nove genes flanqueados por duas regiões de longa repetição terminal (LTR – long terminal repeat), que atuam na integração do genoma viral ao genoma hospedeiro e participam da regulação da transcrição gênica. A replicação eficiente dos retrovírus depende dos três genes estruturais: gag, pol e env. As proteínas de gag constituem o capsídeo, nucleocapsídeo e matriz protéica. A poliproteína Pol origina as enzimas integrase, transcriptase reversa e polimerase. A gp160 é codificada pelo gene env é a precursora das proteínas do envelope viral. As proteínas regulatórias codificadas por tat e rev ativam a transcrição e a tradução dos demais genes virais. Os genes acessórios vif, nef, vpu e vpr não são essenciais para a replicação viral, mas estão envolvidos em mecanismos de escape e infectividade viral.